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O Licoroso do Pico

Joao Paulo Martins

Se quisermos eleger os vinhos mais originais e fora do comum que se produzem em Portugal, teremos obrigatoriamente de falar dos licorosos da ilha açoriana do Pico. Os vinhos deste tipo (licoroso) produzem-se por todo o país e até regiões que não suspeitávamos (como o Algarve, por exemplo) também tiveram vinhos licorosos com alguma fama nos anos 60 e 70 do século passado. Nas outras regiões havia uma certa tradição das adegas cooperativas terem também um licoroso, o que permitia aos sócios terem o seu próprio “estilo Porto”. Por norma estes vinhos seguem o mesmo modelo dos outros de Denominação de Origem – Porto, Madeira, Moscatel -, ou seja, a fermentação é interrompida pela adição de aguardente e daí resulta então um vinho com mais álcool (normalmente na casa dos 19/20º) e com algum açúcar residual, exactamente porque a fermentação não foi até ao fim. A originalidade de alguns dos licorosos do Pico, sobretudo da marca Czar e também da Cooperativa local, é que a fermentação se estende por muito tempo fazendo com que o vinho final atinja graduações elevadas, sem necessidade de adição de aguardente e resultando num vinho bem mais seco do que os seus congéneres do continente. Como se isto por si não chegasse, estes licorosos são verdadeiramente vinhos radicais pelo perfil aromático que apresentam. Na cooperativa local está-se a trabalhar na preparação de um Licoroso 20 anos, alargando assim a escolha. São vinhos de sobremesa mas que, num golpe de asa mais criativo, podem mesmo ser companheiros de alguns pratos que incluam, por exemplo, carnes fumadas e saladas verdes. São vinhos desafiantes que podem até parecer algo estranhos num primeiro contacto mas que depois se mostram com muita complexidade e riqueza. A conhecer sem qualquer hesitação, não só os da Cooperativa mas também da marca Czar.

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