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As vinhas de Torres

Joao Paulo Martins

Se recuássemos umas décadas, até aos anos 70 e 80 do século passado, iríamos conhecer um ambiente vínico que entretanto desapareceu; iríamos conhecer uma das maiores adegas cooperativas do país – a de Torres Vedras – e que hoje está morta e enterrada, iríamos também provar vinhos muito, mas mesmo muito diferentes do que podemos provar hoje. À época quase não havia produtores-engarrafadores, toda a gente vendia as uvas à cooperativa. Aquela que nós hoje chamamos a região de Lisboa, chegou a ser povoada por mais de 20 adegas cooperativas. Hoje ainda existem algumas mas já sem a importância que em tempos tiveram. A região sempre produziu muito e continua a produzir. O que mudou entretanto foi o conceito de vinho – hoje a qualidade é mais importante que a quantidade – e foi assim que se mudaram as castas e os perfis dos vinhos. Foi assim que (no caso das tintas) a Castelão perdeu protagonismo, a Tinta Miúda quase se eclipsou, e a Preto Martinho perdeu-se algures. E com a saída de umas chegaram outras, quer de outras regiões do país – Alvarinho, Antão Vaz, Fernão Pires -, quer de fora, como a Viognier, Chardonnay ou Sauvignon Blanc (estas brancas) e nas tintas o movimento foi idêntico, chegou a inevitável Touriga Nacional, a Touriga francesa e a Roriz que passaram a lidar tu cá tu lá com a Syrah, Merlot ou Pinot Noir. Não muito longe de Torres temos empresas gigantes como a Casa Santos Lima, ou a DFJ – e produtores-engarrafadores que ganharam prestígio como a Quinta do Monte d’Oiro, Chocapalha ou Quinta do Pinto, só para citar alguns. Naturalmente que sobra espaço para os pequenos e para os vinhos alternativos, como Casal Figueira ou Adega da Capucha. Para nos focarmos apenas num deles falaremos hoje da Adega Mãe, um grande projecto criado por uma empresa desde sempre ligada ao negócio do bacalhau. Aqui optou-se por um portefólio onde têm sobretudo lugar os vinhos varietais; são vinhos modernos de perfil, muito bem feitos e que dão muito prazer a beber. Das antigas vinhas de Torres a Adega Mãe não é, seguramente, tributária. A aposta na qualidade é o mais importante.

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